Passeio Público


Passeio público, século XIX

Nota: A crônica a seguir foi publicada originalmente na Semana Ilustrada, Rio de Janeiro, em 28 de setembro de 1862, há exatos 146 anos.

Ilmo. Sr. F. I. Alho.

Li com avidez a polêmica sustentada por V. S. contra o meu procurador o Sr. Punch.

Os prelos do Jornal do Comércio gemeram durante oito longos dias, emudecendo, por fim, sem que luzisse no espírito público a chispa da verdade nem assim (suponha que estou com o dedo polegar encostado à última falange do dedo mínimo).

Houve muita verbiagem, muita faúlha de sua parte; mas argumento de polpa, razão de convencer, nichts.

Quos vult perdere
Jupiter dementat

V. S. correu daqui para ali sobre o assunto, com a vivacidade e graça que todos lhe reconhecem, mas nem por isso conseguiu vencer, nem mesmo convencer.

Entre outras coisas alegou em um dos seus comunicados “documentos de desinteresse exibidos nos reparos do Passeio”.

Hein? Creio que não li bem. Onde estão esses documentos? Quando fez esses reparos desinteressadamente?

As obras rezadas no contrato de 1.° de dezembro de 1860 foram orçadas em oitenta contos. Os oitenta contos foram pagos à boca do cofre. Até aqui não houve — desinteresse.

As que não estavam mencionadas no contrato foram pagas à parte, assim: a ponte de ferro, os seis pedestais para as estátuas e o repuxo. Também não houve desinteresse.

Ainda mais: V. S. não prescindiu da subvenção estipulada na condição 7ª do contrato e começou a percebê-la desde o dia 27 de janeiro do corrente ano. Esta subvenção é de 833$333 mensais.

Isto significa que, antes da abertura do Passeio, V. S. teve para conservação de uma coisa que ninguém estragava o magro auxílio de seis contos cento e onze mil e tantos réis (6:111$000).

Quem sabe se não é isto o que mereceu o nome de desinteresse?

O Sr. F. I. Alho sempre foi homem espirituoso!

Abaixo transcrevo alguns documentos do seu desinteresse, colhidos no expediente do Ministério da Agricultura.

“Ao Ministério da Fazenda, para que expeça as precisas ordens, a fim de que no tesouro nacional seja paga a Francisco José Fialho a subvenção estipulada na condição 7ª do contrato de 1.° de dezembro de contar do dia 27 de janeiro do corrente ano em que o Passeio Público foi dado por pronto, embora tenha ele de ser franqueado somente no dia 7 de setembro próximo vindouro, levando-se essas despesas às verbas a que se refere o § 51 do art. 2.° da lei do orçamento do exercício de 1861 a 1862 e 1862 a 1863.

“— Ao mesmo, para ordenar que ao empresário das obras de restauração e conservação do Passeio Público desta corte, Francisco José Fialho, seja paga pela verba a que se refere o § 55 do art. 2.° da lei do orçamento a quantia de 5:550$000, proveniente de diversas obras acrescidas, e que não foram incluídas no contrato celebrado em 1.° de dezembro de 1860, sendo 3:500$000 pela construção de uma ponte de ferro em substituição de uma de madeira, 1:800$000 pela de seis pedestais para as estátuas e 250$000 pela de um repuxo.

“— Ao mesmo, comunicando que o governo, concordando com sua informação constante do ofício da mesma inspetoria de 4 de fevereiro próximo passado, relativo à abertura do Passeio à concorrência do público se expedem nesta data ao tesouro nacional as precisas ordens para que Francisco José Fialho, empresário das respectivas obras de conservação e reparação, comece a perceber a subvenção estipulada na condição 7ª do seu contrato desde o dia 29 de janeiro do corrente ano, em que o dito Passeio foi dado por pronto “.

Dr. Semana.

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