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Neste dia das crianças, Machado de Assis nos conta a história de um certo gatinho preto…

Black Cat, de Rui Sousa
Black Cat, por Rui Sousa

Em outubro de 1986, a Carta Mensal (editada pelo Orgão do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio) publicava o artigo “Radiografia de Machado de Assis”, do professor Gladstone Chaves de Melo (1917-2001), em que se apresentava uma carta escrita por Machado de Assis a certa menina de doze anos que o presenteara com um gatinho. O original fora passado a Gladstone por Herculano Borges da Fonseca, ligado a Machado, já que alguns de seus antepassados eram amigos de Carolina. A delicadeza de Machado de Assis chega ao ponto de escrever agradecendo à menina como se o autor da missiva fosse o próprio e inocente bichano…

D. Alba

Só agora posso pegar na pena e escrever-lhe para agradecer o obséquio que me fez mandando-me de presente ao velho amigo Machado.

No primeiro dia não pude conhecer bem este cavalheiro; ele buscava-me com palavrinhas doces e estalinhos, mas eu fugia-lhe com medo e metia-me pelos cantos ou embaixo dos aparadores.

No segundo dia já me aproximava, mas ainda cauteloso. Agora corro para ele sem receio, trepo-lhe aos joelhos e às costas, ele coça-me, diz-me graças, e, se não mia como eu, é porque lhe custa, mas espero que chegue até lá.

Só não consente que eu trepe à mesa, quando ele almoça ou janta, mas conserva-me nos joelhos e eu puxo-lhe os cordões do pijama.

A minha vida é alegre. Bebo leite, caldo de feijão e de sopa, com arroz, e já provei alguns pedaços de carne. A carne é boa; não creio, porém, que valha a de um camundongo, mas camundongo é que não há aqui, por mais que os procure. Creio que desconfiaram que há mouro na costa, e fugiram.

Quando virá ver-me? Eu não me canso de ouvir ao Machado que a senhora é muito bonita, muito meiga, muito graciosa, o encanto de seus pais.

E seus pais, como vão? Já terão descido de Petrópolis? Dê-lhes lembranças minhas, e não esqueças este jovem…

Gatinho preto.

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Arquivado em correspondencia

A Carolina


Túmulo de Machado de Assis e Carolina Augusta Xavier de Novais, São João Batista, Rio de Janeiro

Nota: Publicado em Relíquias de Casa Velha, 1906.

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, — restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

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