Arquivo da tag: diario do rio de janeiro

O Rio de Janeiro está em festas — festas realizadas anteontem e festas adiadas para 24 e 25. O casamento da herdeira da coroa é o assunto do momento…

Princesa Isabel, Conde D'Eu e familia
D. Pedro II e família em Petrópolis, foto de Otto Hees

Nota: A crônica a seguir foi publicada originalmente na Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, em 17 de outubro de 1864, há exatos 144 anos.

O Rio de Janeiro está em festas — festas realizadas anteontem e festas adiadas para 24 e 25. O casamento da herdeira da coroa é o assunto do momento.

Um céu puro e um sol esplêndido presidiram no dia 15 a este acontecimento nacional. A natureza dava a mão aos homens; o céu comungava com a terra.

Não descreverei nem a festa oficial nem a festa pública. Quem não assistiu à primeira leu já a relação dela nos andares superiores dos jornais; na segunda todos tomaram parte — mais ou menos — todos viram o que se fez, em arcos, coretos, pavilhões, iluminações, espetáculos, aclamações e mil outras coisas. E sobretudo ninguém deixou de ver e sentir a melhor festa, que é a festa da alegria íntima, natural, espontânea, a festa do cordial respeito que o povo tributa à primeira família da nação.

Uma das coisas que fez mais efeito nesta solenidade foi a extrema simplicidade com que trajava a noiva imperial. É impossível desconhecer o delicado pensamento que a este fato presidiu, na idade e na condição de Sua Alteza: as suas graças naturais, as virtudes do coração e o amor deste país, são o seu melhor diadema e a suas jóias mais custosas.

As festas celebradas anteontem, e que deviam continuar hoje, foram adiadas para 24 e 25, época em que devem os augustos consortes voltar de Petrópolis. Até lá o Rio de Janeiro apresentará o aspecto da mais completa desolação?

Refiro-me ao temporal, a esse temporal único, assombroso, aterrador, que os velhos de oitenta anos viram pela primeira vez, que os adolescentes de quinze anos esperam não ver segunda vez no resto dos seus dias, a esse temporal, que, se durasse 2 horas, deixava a nossa cidade reduzida a um montão de ruínas.

Durante uns dez minutos tivemos, nós, os fluminenses, uma imagem do que seria o grande cataclismo que extinguiu os primeiros homens. Rompeu-se uma catarata do céu; Éolo soltou os seus tufões; o trovão rolou pelo espaço; e um dilúvio de pedras enormes começou a cair sobre a cidade com a violência mais aterradora que se tem visto.

Seria o látego com que a divindade nos castigava? O mesmo temporal tinha-se dado em São Paulo poucos dias antes; dar-se-á caso que tenhamos de vê-lo repetido em todas as cidades do mundo? Se assim for, não há dúvida de que são chegados os tempos; os tufões são, portanto, os batedores do cometa Newmager, com que me ocupei num dos meus primeiros folhetins.

Os leitores estarão lembrados do que eu disse nessa ocasião, aceitando o cometa como um castigo do céu. Apesar de já descrer até dos cometas, não pude recusar a este o testemunho da minha fé. Eu lastimei então que um anúncio feito tão tarde não pudesse fornecer aos homens o meio de conjurar o cataclismo, cessando a transmissão dos seus vícios e dos seus defeitos às gerações que se lhes seguissem, embora continuassem eles a ser hipócritas, velhacos, ingratos, difamadores, egoístas, vaidosos, ridículos.

Se acreditava, porém, no cometa, ainda assim não deixava de nutrir certa esperança. Essa esperança começa a desvanecer-se diante dos prenúncios que vão aparecendo.

A proximidade do Átila celeste revoluciona o espaço; não há dúvida que o tufão que começa a varrer a face da terra é a respiração do monstro. E, a julgar pela violência, o monstro está próximo.

Não repetirei aqui o trocadilho que toda a gente repetiu durante a semana — até o Cruzeiro do Brasil — o trocadilho da quebra dos banqueiros e da quebra das vidraças. Mas se falo em vidraças é só para dar um conselho aos vidraceiros. Foram estes os únicos que aproveitaram com o temporal. Há cerca de duzentos mil vidros quebrados no Rio de Janeiro; os vidraceiros aproveitaram a ocasião e declaram-se os soberanos reparadores dos males da cidade. Em conseqüência, altearam os preços.

Os vidraceiros desconhecem os seus próprios interesses. Baixar os preços era a única medida da ocasião, por isso que, havendo trabalho em abundância, convinha assegurar esse trabalho pela perspectiva da modicidade do custo. Mas, como a operação de encher vidraças não requer estudos preliminares de lógica, os vidraceiros podem facilmente abster-se de raciocinar, e o resultado é cometerem um erro, quando podiam exercer duas virtudes: — primeira, socorrer facilmente aos males públicos; a segunda, fazer no orçamento dos seus ganhos um aumento de verba.

Demais — e é isto o importante — os proprietários, receosos do cataclismo de 1865,quererão acaso envidraçar as suas casas para ver perdidos, dentro de pouco tempo, o dinheiro e o trabalho? Eu acho que não, e nesse caso, se é difícil reparar os estragos do temporal do dia 10, com os preços ínfimos, sê-lo-á muito mais, com os preços alteados.

Ofereço estas reflexões à corporação dos vidraceiros da capital.

Se é verdade que o cometa deve aparecer e se as revoluções da atmosfera são sintomas da presença do Átila celeste, é para admirar — mais do que em circunstâncias ordinárias — o ato que a população fluminense apreciou no sábado: a ascensão do aeronauta Wells.

Pois que, ousado mortal! quando um habitante do espaço ameaça visitar a terra, quando os teus semelhantes tremem de pavor só a essa idéia, ousas tu — de alma alegre e coração à larga — invadir os domínios aéreos, afrontar o dito habitante no seio da sua própria casa?

Esta arrojada visita aérea — que é bastante para despertar a idéia de represálias — foi executada no sábado, como se sabe, às 11 horas da manhã.

O dia estava magnífico; o céu azul, o ar puríssimo. Tudo convidava o Sr. Wells a realizar as suas promessas. O campo de Sant’Anna regurgitava de povo que correu a ver aquele espetáculo duplamente curioso: — primeiro, por ser arrojado; depois, por ser gratuito.

O balão subiu no meio de aclamações.

Não era o primeiro espetáculo deste gênero efetuado na capital, mas é sempre digno de ser visto e apreciado.

Pouco tempo depois o Sr. Wells descia sobre o morro da Viúva, calmo e tranqüilo, como quem volta para casa, depois de um passeio higiênico.

Anuncia-se nova ascensão para o dia 24.

Então pretende o Sr. Wells admitir alguns amadores. Vou já avisando aos corajosos da capital; dizem que na próxima ascensão irá com o Sr. Wells uma americana. É vergonhoso que o exemplo de uma mulher não seduza a muitos homens, tanto mais que neste caso há dois balões, em vez de um, o que torna mais efetiva a segurança.

Completem os leitores mentalmente as muitas páginas que eu podia escrever neste assunto e a propósito da última ascensão.

A conquista do ar! Quem é que não se sente tomar de entusiasmo frente esta nova aplicação dos conhecimentos humanos? Enquanto os leitores deixam assim correr a imaginação pelo ar, o folhetinista atravessa os mares e vai ver em longes terras da Europa um poeta e um livro.

Cantos fúnebres é o novo livro do Sr. Dr. Gonçalves de Magalhães. Não é completamente um livro novo; uma parte das poesias estão já publicadas. Compõe-se dos Mistérios (cantos à morte dos filhos do poeta), algumas nênias à morte de amigos, vários poemas e uma tradução da Morte de Sócrates, de Lamartine.

O autor dos Cantos fúnebres ocupa um lugar eminente na poesia nacional. O voto esclarecido dos julgadores já lh’o reconheceu, a sua nomeada é das mais legítimas.

Quando os Mistérios apareceram em volume separado, o público brasileiro aceitou e leu esse livrinho, assinado pelo nome já venerado do eminente poeta, com verdadeiro respeito e admiração.

O sucesso dos Mistérios foi merecido; nunca o autor dos Suspiros poéticos tinha realizado tão brilhante a união da poesia e da filosofia: ao pé de três túmulos, sufocado pelas próprias lágrimas, o poeta pôde mais facilmente casar essas duas potências da alma. A elevação do sentido e a melancólica harmonia do verso eram dignas do assunto.

Tão superior é o merecimento dos Mistérios que agora mesmo, no meio de um livro de trezentas e tantas páginas, eles ocupam o primeiro lugar e se avantajam em muito ao resto da obra.

Não li toda a tradução da Morte de Sócrates, nem a comparei ao original; mas as páginas que cheguei a ler pareceram-me dignas do poema de Lamartine. O próprio tradutor declara que empregou imenso cuidado em conservar a frescura original e os toques ligeiros e transparentes do poema. Essa devia ser, sem dúvida, uma grande parte da tarefa; para traduzir Lamartine é precioso saber suspirar versos como ele. As poucas páginas que li dizem-me que os esforços do poeta não foram vãos.

Os Cantos fúnebres encontrarão da parte do público brasileiro o acolhimento a que têm direito. Tanto mais devem procurar o novo livro quanto este volume é o 6° da coleção das obras completas do poeta, que o Sr. Garnier vai editar.

O volume que tenho à vista é nitidamente impresso. A impressão é feita em Viena, aos olhos do autor, garantia para que nenhum erro possa escapar; sendo esta a edição definitiva das obras do poeta, é essencial que ela venha limpa de erros.

Um bom livro, uma bela edição — que mais pode desejar o leitor exigente?

Passemos ao teatro.

O Ginásio representou na sexta-feira uma nova peça, — Montjoye, em 5 atos e 6 quadros, por Octavio Feuillet.

Montjoye teve um grande triunfo em Paris. Crítica e platéia se juntaram para coroar a nova composição do autor da Dalila e doRomance de um moço pobre. Ora, a nova composição era a primeira em que O. Feuillet deixava a esfera fantástica e ideal de Maximo Odiot e de André Roswein, para pisar a terra chã da vida real e dos costumes burgueses. O poeta cortava as asas para envergar o paletó.

Mas, ninguém melhor que o autor da Dalila podia cometer essa empresa. Descendo à vida prática, ele trazia consigo as chaves de ouro com que abria as portas da fantasia; soube penetrar na realidade sem tomar a natureza dela: tinha palheta e tintas, desdenhou a máquina e o colódio. Em resumo, não submeteu a musa às exigências de uma realidade estéril; sujeitou a realidade às mãos instruídas da musa. É o que se conhece vendo a nova peça do autor da Dalila.

Même quand l’oiseau marche on voit qu’il a des ailes.

O tipo de Montjoye está reproduzido com habilidade de mestre. Montjoye é o homem prático, o homem utilitário, o homem forte. Todos os bons sentimentos, todas as ilusões da mocidade, são para ele inúteis quimeras; indicai-lhe a melhor aptidão, adornada por essas ilusões, cheia desses sentimentos, ela nada valerá para ele; mostrai-lhe, pelo contrário, a inteligência esperançosa, mas nua desses sentimentos e dessas ilusões, mostrai-lhe Gendrin, e ele dará um suspiro de lamentação, quando lhe vieram dizer que o pobre rapaz morreu em Xangai.

Momo, consultado por Júpiter sobre a organização do homem, notou um defeito: o de não ter ele uma janela no coração por onde todos lhe vissem os sentimentos. Se Deus consultasse Montjoye no mesmo assunto, este criticaria a própria existência do coração e aconselharia a supressão dele.

Montjoye só conhece uma utilidade nos sentimentos dos outros homens: é a de lhe servir aos fins que ele tenha em vista.

Aproveitará a fibra humanitária de Saladin para preparar a candidatura à câmara dos deputados; dará plena sanção ao amor de Cecília, uma vez que o próximo casamento quebre nas mãos do adversário político uma arma eleitoral.

Ele próprio faz a sua profissão de fé; só acredita em duas coisas; em moral, o meu é o teu, — em filosofia, dois e dois são quatro. Fora daí — há o vácuo.

Assim estudado, o tipo de Montjoye mostra-se, desenvolve-se, afirma-se de ato para ato. Um dia, já separado dos seus, Montjoye sente que lhe falta alguma coisa; não é ainda o sentimento da saudade e do amor; é puramente o gosto do hábito; Montjoye não estima esta ou aquela pessoa, acostuma-se a vê-la. Quando ela lhe falta, é ainda uma exigência egoística que reclama contra o isolamento.

Mas os acontecimentos se sucedem, e o espírito de Montjoye transforma-se com eles.

Não relatarei esses acontecimentos nem indicarei o sentido dessa transformação. O leitor preferirá ir ver por seus próprios olhos os lances dramáticos, as situações novas, os traços enérgicos e verdadeiros com que estão acabados os caracteres da peça de O. Feuillet.

Reproduzir na cena um tipo tão verdadeiro e tão artisticamente acabado como Montjoye, é tarefa difícil para um ator. Consegui-lo é dar prova de muito talento. Folgo de mencionar aqui esta vitória do Sr. Pedro Joaquim, que fez um desempenho excelente do papel de Montjoye. No maior lance, como na menor frase, o artista soube conservar o caráter do papel, na altura em que o autor o colocou, e em que ele o compreendeu. Montjoye fica sendo um dos seus mais brilhantes títulos de artista.

O papel de Montjoye é o principal da peça; à roda dele movem-se as outras personagens, como para lançar um fundo no quadro em que ressalta aquela enérgica figura. O papel de Cecília, um dos tipos mais suaves da graça e de ingenuidade, é representado pela Sra. Adelaide com um talento a que o público fez justiça. A cena em que o pai lhe fala do casamento, e a que se segue, com Jorge de Sorel, merecem da parte da crítica sinceros aplausos: é difícil ser tão ingenuamente ingênua como a distinta artista o foi. A dor e a angústia daquela situação em que Cecília vê entrar no pátio o amante ferido foram reproduzidas por um grito e por um movimento fisionômico cheio de verdade.

Vai-se-me acabando o papel e minguando o espaço. Não entrarei em minuciosa análise dos outros papéis. Farei menção especial da mulher de Montjoye, papel que a Sra. Clélia representou com muita distinção. Os Srs. Salles Guimarães e Paiva merecem menção especial nos papéis de Saladin e Tiberge; talvez haja alguma coisa a exigir do Sr. Monvlar em uma ou em outra cena, mas esse artista soube em geral haver-se tão bem, que eu prefiro adiar as observações para o caso de reincidência. Uma primeira representação pode desculpar algumas faltas. É por isso que eu me abstenho de referir outras que achei no resto dos papéis.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em crônica

Dai-me boas semanas e eu vos darei bons folhetins…

o escritor de folhetins
“Dai-me boas semanas e vos darei bons folhetins…”

Nota: A crônica a seguir foi publicada originalmente no Diário do Rio de Janeiro , Rio de Janeiro, em 10 de outubro de 1864, há exatos 144 anos.

Dai-me boas semanas e eu vos darei bons folhetins.

Mas que se pode fazer no fim de sete dias chochos, passados a ver chover, sem acontecimento de natureza alguma, ao menos destes que tenham para o folhetim direito de cidade?

Gastaram-se os primeiros dias da semana a esperar o paquete, — e o paquete, como para punir tão legítima curiosidade, nada trouxe que estivesse na medida do desejo e da ansiedade. Veio apenas a notícia de um casamento real no norte da Europa, que muita gente olha como um prenúncio da formação do reino escandinavo, mas que eu não sei se dará em resultado exatamente o contrário disso, isto é, a supressão de uma monarquia constitucional em favor de uma monarquia autocrática.

Aí vou eu entrando pelo terreno da política torva e sanhuda. Ponto final ao acidente.

Mas — como dizia eu — que se pode fazer depois de uma semana tão vazia como a cabeça do rival de André Roswein?

Diz Alphonse Karr que depois de encerradas as câmaras e posta a política em férias, os jornais franceses começam a descobrir as virtudes e os milagres; aparecem os atos de coragem e abnegação, e as crianças de duas cabeças e quatro pés. A observação é verdadeira, talvez, mas para lá; o Rio de Janeiro em falta de política, nem mesmo se socorre da virtude e dos fenômenos da natureza. Tudo volta a um silêncio desolador; raream os acontecimentos, acalma-se a curiosidade pública.

Assim, foi com profundo desgosto que eu fiz hoje subir à minha varanda a musa gentil e faceira do folhetim.

— Casta filha do céu, que vês tu na planície? perguntei-lhe como no poema de Ossian.

A infeliz desceu com ar desconsolado e disse-me que nada vira, nem a sombra de um acontecimento, nem o reflexo de uma virtude.

Perdão, viu uma virtude.

Não sei em que lugarejo da Bahia reuniu-se o júri no prazo marcado e teve de dissolver-se logo, porque o promotor de justiça não apresentou um só processo.

Ó Éden baiano! dar-se-á caso que no intervalo que mediou entre a última sessão do júri e esta, nem um só crime fosse cometido dentro dos vossos muros? Nem um furto, nem um roubo, nem uma morte, nem um adultério, nem um ferimento, nem uma falsificação? O pecado sacudiu as sandálias às vossas portas e jurou não voltar aos vossos lares? O caso não é novo; lembra-me ter visto mais de uma vez notícias de fenômenos semelhantes.

O Éden, antes do pecado de Eva, não era mais feliz do que essas vilas brasileiras onde o código se vai tornando letra morta e os juizes verdadeiras inutilidades.

Onde está o segredo de tanta moralidade? Como é que se provê tão eficazmente à higiene da alma? Há nisto matéria para as averiguações dos sábios.

— Mas — juste retour des choses dici-bas — talvez que na próxima sessão do júri, a vila, que desta vez subiu tanto aos olhos da moralidade, apresente um quadro desconsolador de crimes e delitos, de modo a desvanecer a impressão deixada pelo estado anterior.

Tudo é possível neste mundo. Em falta de acontecimentos há sempre um acontecimento que pode entrar em todos os folhetins, e ao qual já me tenho referido muitas vezes — até com risco de monotonia.

É um dever de que não me liberto abrir os olhos à câmara municipal a respeito de uma coisa que não é favor, mas dever de tão alta instituição.

Se a câmara municipal não tem por obrigação cuidar do município, tomo a liberdade de perguntar para que serve, então, e se é para continuar a viver do mesmo modo que os cidadãos, de quatro em quatro anos, vão deitar uma cédula à urna eleitoral.

Longe de mim negar o que a câmara tem feito, mas também longe de mim a idéia de ficar mudo diante do abandono em que certas necessidades municipais estão.

O caminho do Catete, que um homem ao espírito chama — caminho apoplético, — é, por assim dizer, o resumo do estado geral da cidade. As folhas reclamam todos os dias contra o descuido da câmara e dos seus agentes, mas é como se pregasse no deserto.

Todos os sentidos de que aprouve à natureza dotar-nos andam perseguidos e em guerra aberta com a poeira, a imundície, os boqueirões, etc.

Ah! a imundície! Como Lucrecia Bórgia aos convivas de Gennaro, a câmara municipal tomou a peito dizer aos fluminenses, depois que lhes alcança os votos:

Messeigneurs, vous êtes tous empoisonnés.

E fala verdade.

Quando se anunciou a chegada dos augustos noivos de Suas Altezas, disse eu que a câmara tratasse de fazer com que vestíssemos roupa lavada, de algodão embora, mas coisa mais limpa do que os molambos que nós temos a honra de receber das suas ilustríssimas mãos.

Sobreveio o período eleitoral, e manifestou-se a grande febre no município. Então perderam-se as esperanças. A soberania popular — frase que os tipógrafos de todos os países já estão cansados de compor e os leitores de todos os livros e jornais cansados de ler — a soberania popular abafou o grito da necessidade pública, e ninguém achou mau o caminho que ia de casa à paróquia.

A câmara, porém, mostrou-se compenetrada do alto papel que se lhe destinou, e lembrou-se de convidar os munícipes para solenizar o casamento de Sua Alteza Imperial que, como os leitores sabem, terá lugar no sábado.

Constroem-se arcos e coretos em vários pontos da cidade, desde o Aterrado até o largo do Paço, mas essas construções deviam ter sida precedidas de alguns melhoramentos, a fim de não ter lugar a aplicação daquela cantiga popular:

Por cima muita farofa, etc.

Demorar-me neste assunto seria aborrecer os leitores. A primeira condição de quem escreve é não aborrecer.

Tous les genres sont bons, hors le genre ennuyeux.

E só agora vejo, na minha carteira da semana, o apontamento de uma notícia que eu estou certo de que há de alegrar os leitores, sejam escritores ou não.

Segundo me disseram, Sua Majestade o Imperador trata de mandar fazer uma edição das obras completas de Odorico Mendes. Os leitores conhecem, de certo, o nome e as obras do ilustre poeta, cuja morte em Londres as folhas noticiaram não há muitos dias.

O ato imperial honra a memória do ilustre poeta; essa memória e esse ato são duas honras para o nome brasileiro.

Uma folha hebdomadária que se publica nesta corte, denominada Portugal, deu ontem aos seus leitores uma notícia que os enche de júbilo, como a todos os que prezam as letras e a língua que falamos.

De há muito que o autor do Eurico, recolhido à vida privada, assiste silencioso ao movimento de todas as coisas, políticas ou literárias.

Esse silêncio e esse isolamento, por mais legítimas que sejam as suas causas, são altamente prejudiciais à literatura portuguesa.

Mas o culto das musas é, além de um dever, uma necessidade. O espírito que uma vez se votou a ele, dele vive e por ele morre. É uma lei eterna. No meio dos labores pacíficos a que se votou, A. Herculano não pôde escapar ao impulso intimo. O historiador e poeta pode fazer-se agricultor, mas um dia lá se lhe converte o arado em pena, e as musas voltam a ocupar o lugar que se lhes deve. As musas são a fortuna de César; acompanham o poeta através de tudo, na bonança, como na tempestade.

O que se anuncia agora, na correspondência de Lisboa do Portugal, é a publicação próxima de dois livros do mestre: Contos do Vale de Lobos, é o primeiro; o segundo é uma tradução do poema de Ariosto.

Quando se trata de um escritor como Alexandre Herculano, não se encarece a obra anunciada; espera-se e aplaude-se.

Ler as obras dos poetas e dos escritores é hoje um dos poucos prazeres que nos restam ao espírito, em um tempo em que a prosa estéril e tediosa vai substituindo toda a poesia da alma e do coração.

Quando os tempos nem dão para um folhetim, não sei que se possa fazer outra coisa melhor.

Eu por mim já fiz até aqui o que era humanamente possível; pouca diferença vai deste folhetim ao milagre dos pães; e essa mesma é mais nos efeitos do fato que no próprio fato. Quando os leitores chegarem ao fim achar-se-ão vazios como no princípio, sentindo uma fome igual à que sentiam quando começaram a ler.

Só haverá uma satisfação: é a do preenchimento destas páginas inferiores que está a cuidado do mais indigno servo dos leitores preencher todas as semanas.

Vejam se não é assim.

E não cuidem que as seguintes linhas, transcritas do Despertador, de Santa Catarina, entram aqui por enchimento. É uma remessa que julgo de meu dever fazer ao Cruzeiro do Brasil. Leia o colega e admire:

“A estréia do jesuíta Razzini como pregador, no domingo último, é aquela que se podia esperar de quem, ignorando o mais trivial de uma língua, se afoita a ir nela pregar para não ser entendido de quem quer que seja!

“Pergunte-se a maior parte dos que lá foram se entenderam — pitada, — apesar dos calafrios e suores que deviam custar ao pobre do Revma., que raras eram as palavras que não fossem muito ruminadas?

“É a estas coisas que jamais poderemos ser indiferentes: um padre que não conhece absolutamente nada da nossa língua, para que vai pregar nela?… Para fazer rir da mímica que emprega quem se acha nesses apertos?!…

“Porém ainda isso não é tudo, é naquela crisálida que está o futuro da ilustração da nossa esperançosa mocidade! Há de ser esse um dos que vêm fazer parte do professorado no ensino de línguas em o novo estabelecimento; o mesmo que tem por obrigação fazer compreender aos seus discípulos comparativamente as belezas de uma língua com as da outra, que tem de descer aos seus modos mais particulares (idiotismos) para dar em equivalentes, se não iguais, ao menos os mais aproximados possíveis. Como serão preenchidas condições tão essenciais, e indispensáveis ao ensino? Veja o público que a maior parte do que importamos em todas as espécies são objetos de carregação, como os chama o vulgo; dos mestres, por esta amostra, já podemos fazer juízo seguro”.

Deixe um comentário

Arquivado em crônica

O Brasil acaba de perder um dos seus primeiros poetas…

judith de caravaggio
Judith e Holofernes, de Caravaggio, 1598

Nota: A crônica a seguir foi publicada originalmente na Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, em 3 de outubro de 1864, há exatos 144 anos.

O Brasil acaba de perder um dos seus primeiros poetas. Se ele tem em alguma conta a glória das musas, o dia em que um destes espíritos deixa a terra, para voar à eternidade, deve ser um dia de luto nacional.

E aqui o luto seria por um duplo motivo: luto por mágoa e luto por vergonha. Mágoa da perda de um dos maiores engenhos da nossa terra, talento robusto e original, imaginação abundante e fogosa, estro arrojado e atrevido. Vergonha de haver deixado inserir no livro da nossa história a página negra do abandono e da penúria do poeta, confirmando hoje, como no século de Camões, a dolorosa verdade destes versos:

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça, e na rudeza

De uma austera, apagada e vil tristeza.

Todos sabem que a vida de Laurindo Rabelo foi uma longa série de martírios. Se não tivesse altas e legítimas aspirações, como todos os que sentem vibrar em si uma corda divina, os padecimentos ser-lhe-iam menos sensíveis; mas, cheio daquela vida intelectual que o animava, dotado de asas capazes de subir às mais elevadas esferas, o poeta sentia-se duplamente martirizado, e a sua paixão atingia proporções dos maiores exemplos de que reza a história literária de todos os países.

A figura de Prometeu é uma figura gasta em alambicados necrológios; mas eu não sei de outra que melhor possa representar a existência atribulada deste infeliz poeta, espicaçado, não por um, mas por dois abutres, a fatalidade e a indiferença. A fatalidade — se é lícito invocar este nome — assentou-se-lhe no lar doméstico, desde que ele abriu olhos à vida; mas, se ao lado dela não se viesse depois sentar a indiferença, a vida do poeta seria outra, e aquele imenso espírito não teria atravessado por este mundo — amargurado e angustiado.

Consola um pouco saber que, na via dolorosa que o poeta percorreu, se já lhe não assistia a fé nos homens, nunca se lhe amorteceu a fé em Deus. Os sentimentos religiosos de Laurindo Rabelo eram os mais profundos e sinceros; ele tinha em si a consciência da justiça divina, em quem esperava, como o último refúgio dos desamparados deste mundo. Em seus últimos momentos deu ainda provas disso; o seu canto do cisne foi uma oração que ele improvisou para ajudar-se a morrer. Os que ouviram essa inspiração religiosa dizem que não se podia ser nem mais elevado nem mais comovente. Assim acabou o poeta cristão.

Laurindo Rabelo era casado há alguns anos. A família foi então para ele o santuário do seu coração e o asilo da sua musa. Os seus labores nestes últimos tempos tendiam a deixar à companheira dos seus dias uma garantia de futuro. Não tinha outras ambições.

Um grande talento, uma grande consciência, um grande coração, eis o que se perdeu em Laurindo Rabelo. Do talento ficam aí provas admiráveis, nos versos que escreveu e andam dispersos em jornais e na memória dos amigos. Era um poeta na verdadeira acepção da palavra; estro inspirado e imaginação fecunda, falando a língua de Bocage e admirando os que o ouviam e liam, tão pronta era a sua musa, tão opulenta a sua linguagem, tão novos os seus pensamentos, tão harmoniosos os seus versos.

Era igualmente uma grande consciência; consciência aberta e franca, dirigida por aquele rigorismo de Alceste, que eu ouvi censurar a mais de um Filinto do nosso tempo. O culto da justiça e a estima do bem eram-lhe iguais aos sentimentos de revolta produzidos pela injustiça e pelo mal. Ele desconhecia o sistema temperado de colorir os vícios medíocres e cantar as virtudes ilusórias.

Quanto ao coração, seus amigos e companheiros sabem se ele o tinha grande e nobre. Quando ele se abria, aos afetos era sempre sem reservas nem refolhos; sabia amar o que era digno de ser amado, sabia estimar o que era digno de ter estima.

Se este coração, se esta consciência, se este talento acaba de fugir aos nossos olhos, a pátria que o perdeu deve contar o dia da morte dele na lista dos seus dias lutuosos.

Há oito dias comemorava eu uma perda literária do país; hoje comemoro outra, e Deus sabe quantas não sucederão ainda nesta época infeliz para as musas! — Assim se vão as glórias pátrias, os intérpretes do passado diante das gerações do futuro, os que sabem, no turbilhão que leva as massas irrefletidas e impetuosas, honrar o nome nacional e construir o edifício da grandeza da pátria.

Ouço que se pretende fazer uma edição dos escritos de Laurindo Rabelo. É um duplo dever e uma dupla necessidade; o produto auxiliará a família viúva; a obra tomará lugar na galeria literária do Brasil.

Quanto a ti, infeliz poeta, pode-se dizer hoje o que tu mesmo dizias em uma hora de amarga tristeza:

A tua triste existência

Foi tão pesada e tão dura,

Que a pedra da sepultura

Já te não pode pesar.

Cometi uma falta no folhetim de domingo passado; não falei de uma obra e de um artista. Cumpre-me reparar a falta.

Quando se festejou a Exaltação da Cruz na igreja de Santa Cruz dos Militares foi inaugurado o retrato a óleo do atual provedor o Sr. general Antonio Nunes de Aguiar. É um retrato de corpo inteiro.

A obra foi olhada como digna de apreço e de estima. Estimar a obra de arte é prestar-lhe uma honra elevada. Os conhecedores e amadores não hesitaram em dar este gênero de homenagem ao trabalho com que a irmandade da Cruz resolvera perpetuar na memória dos vindouros os seus sentimentos de gratidão.

É que realmente a simples vista do quadro faz adivinhar um pincel adestrado e inteligente. O nome do autor corresponde a essa apreciação. O Sr. Rocha Fragoso é um dos nossos artistas mais capazes e mais dignos de apreço. Dotado de talento real para a pintura, foi um discípulo esperançoso da nossa academia, e quando mais tarde voltou de Roma, duplamente condecorado, — com o aplauso dos mestres e com a comenda de S. Gregório Magno, — os seus irmãos de arte o receberam como uma honra da classe.

Dando ao Sr. Rocha Fragoso os meus sinceros aplausos, não deixarei de consignar aqui o desejo de que novas provas de seu apreciado talento venham conquistar novos aplausos, dando-me ainda o prazer de escrever muitas vezes o seu nome neste folhetim.

Que a arte e os artistas vão ganhando neste país um lugar distinto, é o melhor desejo de todo o coração verdadeiramente brasileiro. Vem a propósito mencionar mais sentou a tragédia Judith e a comédia As primeiras proezas de Richelieu.

Calçar na mesma noite o coturno de Melpomene e a chinela de Talia, passar da tenda de Holofernes e dos rochedos de Betúlia aos paços de Luiz XIV e ao camarim do sobrinho do Cardeal, era dar prova de um talento vasto e variado. A artista quis entrar nessa prova, que, aliás, já dera ao público do seu país. Aquela circunstância e a de ser o espetáculo em benefício da artista encheram o vasto salão do teatro Lírico.

Choveram nessa noite aplausos, flores e coroas.

O primeiro espetáculo que se ofereceu aos olhos do espectador ao levantar o pano, foi, como já se tem visto em outras peças, o de um asseio e ordem cênica a que não andamos muito acostumados. Essa primeira impressão é já de si agradável e dispõe o espírito do espectador.

Como sempre, o espectador assiste distraído às primeiras cenas até a entrada de Emília das Neves, e daí em diante é a eminente atriz quem lhe atrai exclusivamente a atenção.

Os dotes que eu já tive ocasião de reconhecer em Emília das Neves, e que são de primeira ordem, acham-se perfeitamente acomodados à figura de Judith e às condições da tragédia; voz, figura, gesto, fisionomia, tudo corresponde a uma ação trágica. Emília das Neves, que possui estas duas condições — a inteligência e o natural — uma para compreender, outra para reproduzir, soube entrar no espírito do papel e desempenhá-lo ao vivo, mediante os recursos de uma arte que lhe é familiar.

Se houvera tempo e espaço para estabelecer preferências nas diversas situações da tragédia, eu desenvolveria os motivos pelos quais a eminente artista me agradou mais no 2°, no 3° e no 5° atos. Limito-me a assinalar aqui essas preferências, que de modo nenhum concluem contra o desempenho, aliás excelente, do resto do papel.

Mas quem dirá que a figura trágica, a voz potente, a gesticulação larga, mas sóbria, como deve ser, — quem dirá enfim, que a atriz talhada para a reprodução das grandes paixões, pode tão facilmente acomodar-se ao gênero familiar da comédia, em que sorri, brinca, moteja, em que de águia se faz pomba, apenas com o intervalo de um quarto de hora?

Conheço alguns artistas que possuem o dom de enternecer no drama e alegrar na comédia; mas não são muitos, de certo, posto que quase todos procurem vencer a mesma dificuldade. Esta dificuldade só muita natureza e muita arte podem vencei-a; se eu admiro, portanto, a intenção de todos os cometimentos desta ordem, estou muito longe de admirar-lhes os resultados.

Com a artista de que me ocupo duvido que se possa exigir mais. Mesmo pondo de parte a circunstância de ter representado na mesma noite os dois gêneros, o que tornava mais flagrante e mais vivo o contraste, o desempenho do papel do menino duque não podia ser mais completo do que foi. Fora sem dúvida para desejar que, em vez das Proezas de Richelieu, comédia do gênero anedótico, sem grande alcance nem grandes pretensões literárias, a empresa fizesse representar uma verdadeira comédia, uma comédia da boa escola, onde o talento de Emília das Neves pudesse entrar no largo estudo que a comédia das Proezas lhe não permitiu.

É verdade, porém, que uma comédia nessas condições não teria um pessoal completo, à exceção da artista de que me ocupo, e do Sr. Gusmão, que não deixarei de mencionar aqui pelo desempenho do barão de Belle-Chasse.

O papel de madame Patin, burguesa ridícula que o leitor pode encontrar, até com o mesmo nome, mas tratada com outro talento, no Chevalier à la mode, comédia de Dancourt, sofreu com o desempenho, não tanto por estar longe de ser completo, como pelo contraste que se apresentava à memória, comparando-se com o excelente desempenho que fez há anos a eminente artista dramática Gabriela da Cunha.

Dizem que a peça escolhida para a próxima recita é a Adriana Lecouvreur.

Terminarei anunciando uma transmigração; morreu a Cruz, mas a alma passou para o Cruzeiro do Brasil — continuando assim a mesma Cruz, revestida de novas galas, segundo a expressão singularmente modesta da redação.

Procurei as novas galas, mas confesso ingenuamente que as não encontrei. Quer-me parecer que ficaram na intenção dos redatores.talia,

Deixe um comentário

Arquivado em crônica